{"id":3431,"date":"2022-06-08T13:36:12","date_gmt":"2022-06-08T11:36:12","guid":{"rendered":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/?p=3431"},"modified":"2022-06-10T16:45:28","modified_gmt":"2022-06-10T14:45:28","slug":"capitulo-5-mulheres-na-revolucao-de-25-de-abril-de-1974","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/2022\/06\/08\/capitulo-5-mulheres-na-revolucao-de-25-de-abril-de-1974\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 5: Mulheres na revolu\u00e7ao de 25 de Abril de 1974"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"https:\/\/go.ivoox.com\/rf\/18828539\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/go.ivoox.com\/rf\/18828539<\/a><br><br>O tema deste programa \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa de 25 de Abril de 1974 e desde logo se nos colocam v\u00e1rias perguntas. Mas antes de nos debru\u00e7armos sobre elas, conv\u00e9m relembrar: o que \u00e9 ser mulher cidad\u00e3? Pois \u00e9 conhecer os seus direitos e faz\u00ea-los valer. Direitos, mas tamb\u00e9m deveres civis, pol\u00edticos e sociais. Ora isso implica mais participa\u00e7\u00e3o, tanto nas cidades como no campo, e implica assumir responsabilidades a v\u00e1rios n\u00edveis, desde o n\u00edvel econ\u00f3mico, ao social e ao pol\u00edtico. \u00c9 neste exerc\u00edcio que se manifesta a cidadania. N\u00e3o se deve confundir \u201ccidadania\u201d com \u201cnacionalidade\u201d. Esta \u00faltima diz respeito ao pa\u00eds de nascimento, ao pa\u00eds de origem, mas pode tamb\u00e9m ser adquirida por \u201cnaturaliza\u00e7\u00e3o\u201d.<br>Voltemos ao 25 de Abril: a pergunta imediata que se nos depara \u00e9 a seguinte: quais foram as conquistas do 25 de Abril de 1974 para as mulheres? E logo a seguir, que participa\u00e7\u00e3o tiveram as mulheres no 25 de Abril, quando muitas delas, tiveram, por exemplo, uma experi\u00eancia de v\u00e1rios anos passados no ex\u00edlio, ou na clandestinidade, ou de sofrimento pela opress\u00e3o do regime salazarista? Para as mulheres,  como foi  o \u201cantes\u201d e o \u201cdepois\u201d do 25 de Abril de 1974? Fala-se pouco da participa\u00e7\u00e3o das mulheres no 25 de Abril, qual foi o seu papel, tanto no 25 de Abril de 1974, como no 1\u00b0 de Maio?<br><br>O que se pode dizer, em primeiro lugar, \u00e9 que se  notou uma presen\u00e7a importante das mulheres na rua e nas manifesta\u00e7\u00f5es que desencadearam o 25 de Abril. Lembramos que o 25 de Abril n\u00e3o foi um golpe de Estado, mas sim uma revolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica. Em Lisboa, onde a maior parte dos acontecimentos se passaram, mas tamb\u00e9m noutras cidades do pa\u00eds, as mulheres desceram para a rua e exprimiram, com o resto da popula\u00e7\u00e3o, a sua vontade de abolir o regime em vigor e o seu desejo de mudan\u00e7a de regime pol\u00edtico e das suas leis discriminatorias.<br>Foi nos locais de trabalho que o desejo de mudan\u00e7a surgiu de imediato. As trabalhadoras eram oprimidas: muito trabalho e pouco dinheiro (ou\u00e7amos as can\u00e7\u00f5es da \u00e9poca, como as de Zeca Afonso e de S\u00e9rgio Godinho). As mulheres viam no patr\u00e3o o s\u00edmbolo da sua opress\u00e3o. Com o 25 de Abril as mulheres reivindicaram aumentos salariais e melhoria de condi\u00e7\u00f5es de trabalho e vida. As mulheres foram das primeiras a fazer piquetes de greve, e a se organizarem dentro das empresas para evitar a fuga dos patr\u00f5es e o desaparecimento das m\u00e1quinas de dentro das f\u00e1bricas. As grandes empresas foram ocupadas por grupos de trabalhadores. Quem assumiu a gest\u00e3o at\u00e9 que  surgissem novas formas de organiza\u00e7\u00e3o foram as comiss\u00f5es transit\u00f3rias de gest\u00e3o. Mais tarde estas grandes empresas foram nacionalizadas. Este processo n\u00e3o aconteceu com as pequenas e m\u00e9dias empresas.<br>https:\/\/www.youtube.com\/watch?time_continue=6&amp;v=hBuNrlM5N8w<br>Como j\u00e1 foi referido, a n\u00edvel do trabalho, as primeiras revindica\u00e7\u00f5es tinham que ver com o aumento dos sal\u00e1rios, que eram dos mais baixos da Europa. Mas n\u00e3o s\u00f3: tamb\u00e9m a reivindica\u00e7\u00e3o de melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho (hor\u00e1rios, pausas, apoio \u00e0 maternidade, etc.). Com a Revolu\u00e7\u00e3o, a participa\u00e7\u00e3o das mulheres nas mudan\u00e7as da sociedade portuguesa esteve estreitamente associada \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es do movimento oper\u00e1rio.<br>Para al\u00e9m do \u00e2mbito laboral, as mulheres intervieram tamb\u00e9m nos locais onde viviam. Criaram-se comiss\u00f5es de moradores (os \u201ccomit\u00e9s de quartier \u201d da B\u00e9lgica), onde as mulheres foram efectivamente uma for\u00e7a promotora. A quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o era muito importante (ouvir a can\u00e7\u00e3o de S\u00e9rgio Godinho). Foi uma forma de participa\u00e7\u00e3o directa, sem prepara\u00e7\u00e3o pr\u00e9via .<br>https:\/\/www.youtube.com\/watch?time_continue=4&amp;v=UjzXatkEhi8<br>https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KpFEn24TyuA<br>As mulheres n\u00e3o podiam votar , n\u00e3o se podiam divorciar, n\u00e3o podiam aceder \u00e0 carreira diplom\u00e1tica, n\u00e3o se podiam inscrever nas aulas de nata\u00e7\u00e3o sem a autoriza\u00e7\u00e3o do pai ou do marido. Estes s\u00e3o apenas alguns exemplos, as barreiras eram in\u00fameras para as mulheres!<br>A sociedade portuguesa antes do 25 de Abril  era uma sociedade conservadora, marcada pela guerra colonial e ainda muito rural. Muita gente trabalhava na agricultura e vivia nas aldeias.<br>As mulheres perceberam rapidamente que os soldados, que seguiram os capit\u00e3es de Abril e foram para a rua, estavam do lado delas. H\u00e1 uma fotografia que ficou c\u00e9lebre e que simbolizou o 25 de Abril, a do cravo na espingarda do soldado. Foram as mulheres que colocaram estes cravos, exemplo que foi de imediato seguido por todos os manifestantes. O cravo na ponta da espingarda consagrava a alian\u00e7a entre o povo e os militares: \u201cO povo est\u00e1 contigo\u201d, gritavam todos na rua e em todas as manifesta\u00e7\u00f5es ocorridas nessa altura. <br> <br><br>As mulheres come\u00e7am a ter consci\u00eancia do seu poder. O poder \u00e9 do Povo (a palavra \u201cpovo\u201d tinha bastante significado nesse per\u00edodo). As mulheres perceberam o que podiam conseguir quando trabalhavam juntas.<br>Havia tamb\u00e9m mulheres resistentes antifascistas. Muitas, que haviam fugido para   o estrangeiro, voltaram a Portugal nessa altura.  Os \u00f3rg\u00e3os repressivos do antigo regime, em particular da PIDE, a pol\u00edcia pol\u00edtica, foram suprimidos. Isso permitiu a normaliza\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica e a instaura\u00e7\u00e3o dum regime democr\u00e1tico.  Os partidos pol\u00edticos foram legalizados, os dirigentes pol\u00edticos exilados voltaram ao pa\u00eds. Prepararam-se elei\u00e7\u00f5es. Apareceram tamb\u00e9m os sindicatos, com cores diferentes segundo as tend\u00eancias partid\u00e1rias (socialistas e comunistas). Foram criadas sec\u00e7\u00f5es para as mulheres nos partidos pol\u00edticos e nos sindicatos. N\u00e3o haveria inten\u00e7\u00e3o de marginalizar as mulheres, embora possa haver d\u00favidas quanto a isso. A raz\u00e3o principal da cria\u00e7\u00e3o das sec\u00e7\u00f5es de mulheres seria o reconhecimento de que tinham problemas espec\u00edficos para resolver e direitos para adquirir. <br>A situa\u00e7\u00e3o antes do 25 de Abril<br>Para perceber a enorme import\u00e2ncia da evolu\u00e7\u00e3o ocorrida em Portugal com o 25 de Abril em prol dos direitos e da autonomia das mulheres, vejamos alguns dados que se reportam ao \u201cpr\u00e9-25 de Abril\u201d. As diferen\u00e7as com a situa\u00e7\u00e3o actual s\u00e3o abissais. Ser\u00e1 que as gera\u00e7\u00f5es mais novas t\u00eam consci\u00eancia de como era \u201cantes\u201d? <br>&#8211; Dados societais \u00e0 data de 1974: <br>25% das mulheres portuguesas trabalhavam no sector industrial. Destas, 85% eram solteiras e 50% tinham idades inferiores a 24 anos.  As mulheres ganhavam 40% menos do que os homens. <br>Muitas mulheres trabalhavam na agricultura como assalariadas sazonais, mas tamb\u00e9m nas ind\u00fastrias de conservas de peixe e alimentos. Este sector industrial assentava sobretudo na m\u00e3o-de-obra feminina. <br>Para poder trabalhar fora de casa, a mulher precisava da autoriza\u00e7\u00e3o do marido. Este podia pedir que o contrato da esposa fosse rescindido. As mulheres n\u00e3o tinham acesso \u00e0s carreiras da magistratura, diplomacia, ex\u00e9rcito, pol\u00edcia&#8230;Certas profiss\u00f5es como enfermeira e hospedeira implicavam a limita\u00e7\u00e3o de direitos, como o direito de casar.<br>No plano familiar, antes do 25 de Abril e da Constitui\u00e7\u00e3o de 1976, as mulheres podiam ser repudiadas pelos maridos. A idade legal para serem autorizados a casar era muito baixa: 16 anos para os homens, e apenas 14 para as mulheres. O marido podia pedir o div\u00f3rcio ou a separa\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m podia repudiar a esposa, se esta n\u00e3o fosse virgem \u00e0 data do casamento. O C\u00f3digo Penal permitia ao marido matar a mulher apanhada em flagrante adult\u00e9rio (e a filha em flagrante corrup\u00e7\u00e3o*?*), incorrendo apenas o risco de sofrer uma pena de desterro de seis meses. <br>Era obrigat\u00f3rio que o domic\u00edlio familiar fosse o domic\u00edlio do marido. A mulher era obrigada a residir com ele. Este tinha o direito de abrir a correspond\u00eancia da esposa. O C\u00f3digo Civil determinava que \u201cpertence \u00e0 mulher durante a vida em comum, o governo dom\u00e9stico\u201d. Ponto final! <br>As m\u00e3es solteiras n\u00e3o tinham qualquer protec\u00e7\u00e3o legal. <br>At\u00e9 1969, a mulher n\u00e3o podia viajar para o estrangeiro sem autoriza\u00e7\u00e3o do marido. <br>Em termos de cuidados de sa\u00fade sexual e reprodutiva, os dados indicam que naquela altura cerca de 43% dos partos ocorriam em casa, 17% dos quais sem assist\u00eancia m\u00e9dica. Em muitos distritos do pa\u00eds n\u00e3o havia maternidade. Os m\u00e9dicos da Caixa de Previd\u00eancia (Seguran\u00e7a Social) n\u00e3o estavam autorizados a receitar contraceptivos, a n\u00e3o ser que fizesse parte de tratamento terap\u00eautico. <br>A publicidade para os contraceptivos era proibida. A mulher n\u00e3o tinha o direito de tomar contraceptivos contra a vontade do marido. Este podia invocar tal facto para fundamentar o pedido de div\u00f3rcio ou separa\u00e7\u00e3o judicial.<br>&#8211; Na educa\u00e7\u00e3o:<br>No plano da Educa\u00e7\u00e3o, os dados estat\u00edsticos de 1970 indicam que 31% das mulheres em Portugal eram analfabetas. Esse n\u00famero desceu para cerca de 6% hoje em dia. Infelizmente ainda existem mulheres analfabetas ou semi-iletradas na sociedade portuguesa. A Associa\u00e7\u00e3o GRAAL, onde a Patr\u00edcia colabora, tal como outras associa\u00e7\u00f5es, investiu muito para ajudar a alfabetiza\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o das mulheres portuguesas, sobretudo nas zonas desfavorecidas e sobretudo aquelas que tinham filhos, para que os benef\u00edcios da sua educa\u00e7\u00e3o passassem tamb\u00e9m para os seus filhos.<br>Queremos deixar aqui expressa a nossa indigna\u00e7\u00e3o : \u00e9 inadmiss\u00edvel que haja, hoje em dia, mulheres (e homens) analfabetos. O analfabetismo e a iliteracia  causam tantas incapacidades \u00e0s pessoas, no seu dia-a-dia, marginalizando-as e excluindo-as. Quem n\u00e3o souber ler nem escrever, quem n\u00e3o conseguir compreender bem um texto, n\u00e3o est\u00e1 capacitado para assinar documentos, passar cheques, ler extractos banc\u00e1rios ou as condi\u00e7\u00f5es de um contrato, quer seja um contrato de trabalho, de aluguer ou banc\u00e1rio. N\u00e3o consegue ler documentos (oficiais ou n\u00e3o), jornais ou mapas. Sem saber ler nem escrever, as pessoas s\u00e3o presas f\u00e1ceis de aldrab\u00f5es e corruptos, e muitos direitos de cidadania ficam fora do seu alcance.<br>Organiza\u00e7ao institucional<br>Nos anos 70, registaram-se alguns progressos relativamente \u00e0  situa\u00e7\u00e3o das mulheres, a n\u00edvel institucional. Criaram-se institui\u00e7\u00f5es a favor dos direitos das mulheres.  Salientamos aqui a cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o para a  Igualdade. Em 1970, havia-se criado um Grupo de Trabalho para a Participa\u00e7\u00e3o da Mulher na Vida Econ\u00f3mica e Social. Em 1973 , criou-se a Comiss\u00e3o para a Pol\u00edtica Social relativa \u00e0 Mulher. Tinha car\u00e1cter consultivo e o seu principal trabalho consistiu no levantamento das discrimina\u00e7\u00f5es legais contra as mulheres, bem como na elabora\u00e7\u00e3o das primeiras propostas de altera\u00e7\u00e3o ao Direito da Fam\u00edlia e \u00e0 Legisla\u00e7\u00e3o Laboral. Em Janeiro de 1975 tal Comiss\u00e3o foi substitu\u00edda pela Comiss\u00e3o da Condi\u00e7\u00e3o Feminina, uma iniciativa de Maria de Lourdes Pintassilgo, que presidira aos grupos anteriores e era ent\u00e3o Ministra dos Assuntos Sociais. <br>1975 foi uma data marcante, a n\u00edvel internacional, na evolu\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es relativas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o feminina e \u00e0 igualdade. As Na\u00e7\u00f5es Unidas proclamaram 1975 Ano Internacional da Mulher. Realizou-se a 1a Confer\u00eancia Mundial sobre as Mulheres na Cidade do M\u00e9xico. A\u00ed foi institu\u00edda a D\u00e9cada das Na\u00e7\u00f5es Unidas para as Mulheres (1976-1985) e com a aprova\u00e7\u00e3o do respectivo Plano de Ac\u00e7\u00e3o Mundial. <br>Ap\u00f3s a 1a Confer\u00eancia sobre as Mulheres em 1975, verificou-se uma tomada de consci\u00eancia, a n\u00edvel internacional, sobre a necessidade de criar mecanismos institucionais para o progresso da situa\u00e7\u00e3o das mulheres. Come\u00e7ou a esbo\u00e7ar-se uma primeira defini\u00e7\u00e3o do papel e fun\u00e7\u00f5es que as mulheres podiam desempenhar na sociedade.  Em abono da verdade devemos dizer que mesmo antes de 1975 se tinha come\u00e7ado a sentir a necessidade de tais institui\u00e7\u00f5es. Em Portugal tamb\u00e9m, j\u00e1 existia um organismo para a igualdade, mas o seu papel foi redefinido com o passar do tempo. Hoje em dia \u00e9 a Comiss\u00e3o para a Igualdade e Cidadania (CIG) que retomou esta fun\u00e7\u00e3o de orienta\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica de igualdade. O Instituto Nacional de Estat\u00edstica fornece-lhe dados sobre a situa\u00e7\u00e3o das mulheres. Com estes dados \u00e9 mais f\u00e1cil identificar as necessidades e fazer propostas ao governo, no sentido de se tomarem certas decis\u00f5es.<br>A CIG depende directamente da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, n\u00e3o dum Minist\u00e9rio espec\u00edfico, o que lhe permite ter uma compet\u00eancia mais abrangente e tratar os problemas de maneira horizontal.<br>Voltando atr\u00e1s, conv\u00e9m dizer que sempre houve, mesmo durante o fascismo, uma consci\u00eancia das lacunas e d\u00e9fices, mas n\u00e3o havia interesse do poder em resolver os problemas. Ao regime fascista convinha um povo analfabeto e f\u00e1cil de manipular, mais do que um povo instru\u00eddo e consciente dos seus direitos. Por isso em certos dom\u00ednios, o progresso foi r\u00e1pido depois do 25 de Abril. Verificou-se uma melhor organiza\u00e7\u00e3o das estruturas das mulheres e mais progresso no sector da educa\u00e7\u00e3o.<br>Em 1975, depois de d\u00e9cadas de aus\u00eancia na cena internacional, Portugal fez-se representar nas comemora\u00e7\u00f5es do Ano Internacional das Mulheres. Portugal deixa de ser marginalizado a n\u00edvel internacional como acontecia no tempo do fascismo. Com a promessa feita pelos militares de entregar o poder aos civis, e de instituir um estado democr\u00e1tico, apesar dos primeiros Presidentes da Rep\u00fablica terem sido militares, Portugal tem de novo o seu lugar entre as na\u00e7\u00f5es.<br>A Participa\u00e7\u00e3o das Mulheres na Sociedade e no meio Associativo<br>Nem todas as mulheres s\u00e3o atra\u00eddas pela pol\u00edtica. Muitas preferem ac\u00e7\u00f5es de proximidade, em associa\u00e7\u00f5es, quer seja no meio laboral ou residencial. Trata-se de uma forma importante de participar na sociedade. As mulheres envolvem-se altruisticamente em actividades que trazem benef\u00edcios \u00e0 colectividade e \u00e0 sociedade.<br>Desta forma, no terreno, as mulheres formam-se e capacitam-se no exerc\u00edcio da cidadania, de maneira convivial e democr\u00e1tica. \u201cTraz outro amigo tamb\u00e9m\u201d. As mulheres s\u00e3o um elemento essencial para a democracia.  Sem elas a sociedade dificilmente se democratiza.<br>Assim, na pol\u00edtica, a participa\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 mais vis\u00edvel a n\u00edvel local e municipal, do que a n\u00edvel nacional.  Muitas mulheres recusam quando lhes \u00e9 oferecida a possibilidade de se candidatarem em listas eleitorais nacionais, qui\u00e7\u00e1 pela tradi\u00e7\u00e3o e h\u00e1bito de sempre terem ocupado um lugar de segundo plano na sociedade, ou qui\u00e7\u00e1 porque n\u00e3o lhes interessa a vida parlamentar.   No meio local as mulheres v\u00eaem o resultado das suas ac\u00e7\u00f5es, enquanto na Assembleia da Rep\u00fablica, o trabalho consiste em elaborar e votar legisla\u00e7\u00e3o cuja aplica\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem verificar.<br>As mulheres gostam de mobilizar solidariedades \u00e0 volta de temas que importam \u00e0 sociedade. Deixamos aqui alguns exemplos de actualidade: o Acordo Global de Com\u00e9rcio e Investimento entre a Uni\u00e3o Europeia e o Canada, mais conhecido por CETA, ou a causa dos produtores de leite. As mulheres tecem solidariedades entre diferentes camadas e grupos da sociedade.<br>Obst\u00e1culos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o da mulher no espa\u00e7o p\u00fablico<br>A cidadania est\u00e1, hoje, mais do que nunca, na ordem do dia. H\u00e1 uma necessidade para que as mulheres se interessem e participem na esfera p\u00fablica. Se as mulheres ficarem em casa, no espa\u00e7o privado, e n\u00e3o se interessarem pelo espa\u00e7o p\u00fablico, este fica apenas para os homens. Ora isso n\u00e3o \u00e9 representativo. Isso era o que acontecia antigamente, no tempo da outra senhora. Para al\u00e9m da quest\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o e dos costumes, que n\u00e3o incentivam a mulher a participar activamente no espa\u00e7o p\u00fablico, h\u00e1 ainda quest\u00f5es de ordem pr\u00e1tica e financeira que determinam, ainda hoje, que as mulheres fiquem sobretudo na esfera privada familiar e do trabalho dom\u00e9stico.<br>Sendo verdade que o trabalho dom\u00e9stico merece todo o respeito, raramente \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o. Muitas mulheres gostariam de poder exercer uma profiss\u00e3o, ou uma actividade associativa ou de voluntariado, mas s\u00e3o obrigadas a ficar em casa por falta de lugares nas creches para os filhos ou por falta de apoio escolar, ou ainda devido \u00e0s desigualdades salariais. Porque auferem em geral menos do que t\u00eam que despender para contratar servi\u00e7os de apoio \u00e0 gest\u00e3o da vida familiar, as mulheres fazem as contas e ficam em casa, porque fica mais caro ir trabalhar fora do que ficar em casa assumindo todas as tarefas da gest\u00e3o familiar.  <br>A desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico \u00e9 outro problema s\u00e9rio. Como contabilizar o valor econ\u00f3mico do trabalho dom\u00e9stico? Como pode ele contar para a carreira contributiva de uma pens\u00e3o de reforma ou para a assist\u00eancia m\u00e9dica da mulher. E se a mulher se divorcia, de que seguran\u00e7a social pode beneficiar se apenas trabalha na sua pr\u00f3pria casa?  O trabalho dom\u00e9stico deve ser respeitado enquanto op\u00e7\u00e3o da mulher.  Se todas as horas despendidas a cuidar da gest\u00e3o da casa, dos filhos, dos familiares, fossem externalizadas, equivaleriam a 1 ou 2 sal\u00e1rios m\u00ednimos, dependendo dos pa\u00edses. <br>Muitas mulheres renunciam a ter filhos, de todo, ou a ter mais do que um filho porque n\u00e3o existem ajudas suficientes previstas para o apoio \u00e0 vida familiar. Isso \u00e9 bastante frequente em Portugal, mas tamb\u00e9m uma amiga alem\u00e3 se queixava da mesma coisa. Acontece mais vezes do que se pensa. Por isso \u00e9 necess\u00e1rio que se invista mais nos servi\u00e7os de apoio social que t\u00eam impacto directo na vida das mulheres (cuidados \u00e0 inf\u00e2ncia, apoio escolar, transportes, cuidados de sa\u00fade, pediatria e geriatria). O sector privado nunca poder\u00e1 resolver tais car\u00eancias para o conjunto da popula\u00e7\u00e3o. A popula\u00e7\u00e3o com menos recursos n\u00e3o tem acesso aos servi\u00e7os prestados pelo sector privado, uma vez que estes s\u00e3o caros, a pre\u00e7os do mercado.<br>Aludimos agora tamb\u00e9m a outros dois casos : o  caso das mulheres agricultoras, que trabalham muitas horas n\u00e3o remuneradas; e o caso das mulheres que trabalham a tempo parcial. Tanto umas como outras s\u00e3o prejudicadas na contabiliza\u00e7\u00e3o das suas contribui\u00e7\u00f5es para a Seguran\u00e7a Social, podendo apenas beneficiar de pequenos seguros de sa\u00fade e pequenas pens\u00f5es de reforma.  <br>Outros factores que dificultam a participa\u00e7\u00e3o das mulheres na sociedade, e isto em quase toda a Europa, relacionam-se com a tradi\u00e7\u00e3o, preconceitos e mentalidades. Ainda se ouve dizer: \u201cSer esposa e m\u00e3e, em primeiro lugar, depois ser activa fora de casa\u201d. Ou seja : tira-se \u00e0s mulheres o direito de decidirem por si pr\u00f3prias.  As mulheres s\u00e3o culpabilizadas por n\u00e3o terem mais tempo para a casa e para os filhos. <br>A forma como a sociedade est\u00e1 organizada reproduz esta vis\u00e3o das coisas. As institui\u00e7\u00f5es que existem e a falta de outras institui\u00e7\u00f5es, tudo contribui para a esta reprodu\u00e7\u00e3o social. S\u00f3 as pol\u00edticas de igualdade e o investimento nas medidas de execu\u00e7\u00e3o de tais pol\u00edticas podem fazer com que a sociedade seja menos hostil para as mulheres.<br><br>Notas<br>O 25 de Abril de 1974 abriu tais possibilidades com uma evolu\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida da sociedade e deu \u00e0s mulheres acesso a outras carreiras e a mais actividades no espa\u00e7o p\u00fablico. Deu-lhes a possibilidade de tomarem as r\u00e9deas do seu destino em m\u00e3os. Mas muito resta ainda por fazer, para se alcan\u00e7ar a igualdade na \u00e1rea profissional, na fam\u00edlia, na sociedade e na pol\u00edtica. <br><br> i Entrevista de Raquel Varela sobre o papel das mulheres no 25 de Abril baseada num cap\u00edtulo do seu livro \u201cHist\u00f3ria popular da Revolu\u00e7\u00e3o Portuguesa\u201d.<br><br>ii O direito de voto concedido em 1931 limitava-se \u00e0s mulheres que tinham um diploma do ensino secund\u00e1rio, enquanto aos homens apenas se exigia que soubessem ler e escrever. S\u00f3 em 1974 \u00e9 que todas as mulheres tiveram o direito de voto. Portugal foi um dos \u00faltimos pa\u00edses da Europa a conceder este direito. Em Espanha foi em 1975.<br><br><br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-video\"><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/files\/2022\/06\/5471b802-3307-4717-90d4-37746459fb82_16-9-aspect-ratio_default_0.jpg25-deabril.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3442\" width=\"-275\" height=\"-154\" srcset=\"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/files\/2022\/06\/5471b802-3307-4717-90d4-37746459fb82_16-9-aspect-ratio_default_0.jpg25-deabril.jpg 880w, https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/files\/2022\/06\/5471b802-3307-4717-90d4-37746459fb82_16-9-aspect-ratio_default_0.jpg25-deabril-300x169.jpg 300w, https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/files\/2022\/06\/5471b802-3307-4717-90d4-37746459fb82_16-9-aspect-ratio_default_0.jpg25-deabril-768x432.jpg 768w, https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/files\/2022\/06\/5471b802-3307-4717-90d4-37746459fb82_16-9-aspect-ratio_default_0.jpg25-deabril-465x262.jpg 465w, https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/files\/2022\/06\/5471b802-3307-4717-90d4-37746459fb82_16-9-aspect-ratio_default_0.jpg25-deabril-695x391.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 880px) 100vw, 880px\" \/><figcaption>Mulheres no 25 de abril de 1974<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que se pode dizer, em primeiro lugar, \u00e9 que se  notou uma presen\u00e7a importante das mulheres na rua e nas manifesta\u00e7\u00f5es que desencadearam o 25 de Abril. Lembramos que o 25 de Abril n\u00e3o foi um golpe de Estado, mas sim uma revolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica. Em Lisboa, onde a maior parte dos acontecimentos se passaram, mas tamb\u00e9m noutras cidades do pa\u00eds, as mulheres desceram para a rua e exprimiram, com o resto da popula\u00e7\u00e3o, a sua vontade de abolir o regime em vigor e o seu desejo de mudan\u00e7a de regime pol\u00edtico e das suas leis discriminatorias.<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/2022\/06\/08\/capitulo-5-mulheres-na-revolucao-de-25-de-abril-de-1974\/\">Lire la suite<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":110,"featured_media":3441,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["entry","author-mulheres","has-excerpt","post-3431","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mci"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3431","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/users\/110"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3431"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3431\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3441"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3431"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3431"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3431"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}