{"id":3454,"date":"2022-06-08T19:38:39","date_gmt":"2022-06-08T17:38:39","guid":{"rendered":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/?p=3454"},"modified":"2022-06-10T16:57:37","modified_gmt":"2022-06-10T14:57:37","slug":"capitulo-8-as-mulheres-nas-primaveras-arabes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/2022\/06\/08\/capitulo-8-as-mulheres-nas-primaveras-arabes\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 8:  \u201cAs Mulheres nas Primaveras \u00c1rabes\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>26 de Mar\u00e7o de 2017 <br><a href=\"https:\/\/go.ivoox.com\/rf\/18828217\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/go.ivoox.com\/rf\/18828217<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Retomando o tema orientador deste programa \u201cMulheres cidad\u00e3s, mulheres na Actualidade\u201d, da R\u00e1dio Alma Bruxelas 101.9 FM, ou seja \u201cAs raparigas s\u00e3o o futuro das sociedades\u201d, desta vez abordamos a quest\u00e3o das jovens que participaram nas Primaveras \u00c1rabes, entrevistando Nelly Jazra Bandarra, autora do livro \u201cFemmes dans les Printemps Arabes\u201d (Editora Arab Scientific Publishers, Beirut, 2014)<br>Patr\u00edcia Foito e Camis\u00e3o: \u201cGostei do livro \u201cLes Femmes dans les Printemps Arabes\u201d, traz muitas informa\u00e7\u00f5es e \u00e9 escrito numa linguagem acess\u00edvel\u201d. Trata-se de um livro sobre as futuras gera\u00e7\u00f5es com um enfoque particular nas mulheres, tantas vezes ignoradas apesar de serem a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o. Nelly, por qu\u00ea este seu interesse pelas mulheres nos pa\u00edses \u00e1rabes?<br>Nelly Jazra Bandarra: O meu interesse pelos pa\u00edses das chamadas \u201cPrimaveras \u00c1rabes\u201d surgiu porque, depois dum per\u00edodo de calma, aconteceu o impens\u00e1vel: as popula\u00e7\u00f5es insurgiram-se, sa\u00edram para a rua e reclamaram o fim de regimes ditatoriais. Na Tun\u00edsia primeiro, em Dezembro de 2010, e depois no Egipto, em Janeiro de 2011. Sendo mulher, interessei-me naturalmente pelas mulheres, cuja participa\u00e7\u00e3o nos movimentos das \u201cPrimaveras \u00c1rabes\u201d foi muito importante. As mulheres estavam na primeira fila, mas ningu\u00e9m falava nelas. Na imprensa publicaram-se algumas fotos das mulheres nas manifesta\u00e7\u00f5es, mas de resto pouca coisa. Algumas jornalistas mulheres escreveram testemunhos e an\u00e1lises, mas esses trabalhos foram pouco divulgados. Falou-se muito mais das mulheres v\u00edtimas de viola\u00e7\u00f5es e maus-tratos. Pouco se falou das mulheres militantes e participantes activas no movimento \u201cPrimaveras \u00c1rabes\u201d.<br>Patr\u00edcia Foito e Camis\u00e3o: Como decorreu a elabora\u00e7\u00e3o do livro? Como recolheu as informa\u00e7\u00f5es?<br>Nelly Jazra Bandarra: Eu vivi na Arg\u00e9lia durante sete anos, conheci os pa\u00edses do Norte de \u00c1frica. Visitei os pa\u00edses vizinhos da Arg\u00e9lia, conheci as aldeias e os habitantes. Foi numa altura em que eu trabalhava na \u00e1rea do apoio ao desenvolvimento agr\u00edcola e rural. Aquando das \u201cPrimavera \u00c1rabes\u201d, eu estava na Europa. Mais tarde fui aos pa\u00edses das \u201cPrimaveras \u00c1rabes\u201d. Em debates e confer\u00eancias conversei com muitas pessoas, sobretudo mulheres respons\u00e1veis associativas. Quando a situa\u00e7\u00e3o mudou, houve pessoas que fugiram depois da repress\u00e3o dos islamistas, houve muitos testemunhos sobre o que se passou. Muita gente dizia que j\u00e1 n\u00e3o cheirava a jasmim, a m\u00edtica flor da Tun\u00edsia.<br>Decidi escrever o livro e chamar a aten\u00e7\u00e3o sobre os pontos que me pareciam importantes e sobre a n\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o que existia, ou que foi promulgada no per\u00edodo revolucion\u00e1rio.<br><br><br>Patr\u00edcia Foito e Camis\u00e3o: O que se passou para que as pessoas viessem para a rua?<br>Nelly Jazra Bandarra: Os regimes existentes nos dois pa\u00edses de que falo no livro: o Egipto e a Tun\u00edsia, palco das mudan\u00e7as mais decisivas, eram regimes ditatoriais. Eram regimes odiados pelo povo e onde reinava uma corrup\u00e7\u00e3o generalizada. Havia tamb\u00e9m muita pobreza e explora\u00e7\u00e3o. Apesar disso houve investimentos importantes em \u00e1reas como a educa\u00e7\u00e3o. Os jovens formaram-se, foram para as universidades, mas quando sa\u00edram n\u00e3o encontraram trabalho. Foi essa gera\u00e7\u00e3o que iniciou as revoltas das \u201cPrimaveras \u00c1rabes\u201d.<br>Nas universidades havia mais mulheres do que homens, mesmo mulheres vindas de meios tradicionais. Por isso a sua presen\u00e7a na rua era quase igual \u00e0 dos homens.<br>Os jovens n\u00e3o podiam emigrar como fizeram as gera\u00e7\u00f5es anteriores, a emigra\u00e7\u00e3o para os pa\u00edses ocidentais encontrava-se bloqueada. Podiam ir sim para os pa\u00edses do Golfo, mas a\u00ed a explora\u00e7\u00e3o era grande e os sal\u00e1rios pouco interessantes. <br>Ao mesmo tempo, esta jovem gera\u00e7\u00e3o sabe manejar a internet, recebe informa\u00e7\u00f5es e est\u00e1 ao corrente de tudo o que se passa no mundo. \u00c9 uma gera\u00e7\u00e3o muito conectada, que alargou a oposi\u00e7\u00e3o ao regime, concentrada at\u00e9 ent\u00e3o num grupo de intelectuais. N\u00e3o podemos esquecer que havia tamb\u00e9m a oposi\u00e7\u00e3o mais tradicional, a dos Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos.<br>Assim, ao longo dos \u00faltimos anos, foi-se preparando uma revolta sem que ningu\u00e9m se apercebesse disso.<br>Paralelamente, houve um grande empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o, registou-se um aumento do pre\u00e7o dos produtos alimentares b\u00e1sicos, sobretudo do p\u00e3o. O \u00faltimo aumento do pre\u00e7o do p\u00e3o foi decisivo na explos\u00e3o da ira das pessoas.<br>A corrup\u00e7\u00e3o era generalizada. No Egipto e na Tun\u00edsia, muitas empresas e activos foram apropriados pelas fam\u00edlias no poder, tanto a fam\u00edlia Mubarak, com a de Ben Ali, respectivamente. <br>O movimento das \u201cPrimaveras \u00c1rabes\u201d come\u00e7ou com um evento marcante : um vendedor de legumes que se imolou, em frente de toda a gente, na pra\u00e7a do mercado da pequena cidade de Sidi-Bouzid, na Tun\u00edsia, no dia 17 de Dezembro de 2010, porque um pol\u00edcia lhe tinha exigido o pagamento de uma multa. A imola\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 habitual nos pa\u00edses mu\u00e7ulmanos. Trata-se de um acto de desespero extremo. Mais tarde veio a saber-se que o tal vendedor de legumes era era uma pessoa diplomada, mas sem emprego, reduzida \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de vendedor ambulante.<br>O movimento iniciado nesta pequena cidade desencadeou manifesta\u00e7\u00f5es importantes no centro de T\u00fanis. O movimento foi entendido como uma mensagem dos descontentes. A partir das camadas mais jovens, alargou-se a toda popula\u00e7\u00e3o na Tun\u00edsia, primeiro, e ao Egipto, pouco tempo depois. Na Tun\u00edsia o movimento iniciou-se por uma sit-in \/*\/*\/ocupa\u00e7\u00e3o de quatro semanas na pra\u00e7a principal de T\u00fanis, e propagou-se as outras cidades em Dezembro de 2010 e Janeiro de 2011. No Egipto a manifesta\u00e7\u00e3o principal teve lugar no dia 25 de Janeiro de 2011, na maior pra\u00e7a do Cairo, a Pra\u00e7a Tahrir (que significa liberdade), e simboliza a revolu\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia. Os jovens, tanto na Tun\u00edsia como no Egipto, s\u00e3o de zonas urbanas e apelaram \u00e0s pessoas para se concentrarem em lugares centrais na capital do seu pa\u00eds, que se transformaram em lugares simb\u00f3licos.<br>L\u00eddia: N\u00e3o se fazem revolu\u00e7\u00f5es sem as mulheres&#8230;lembremo-nos da Padeira de Aljubarrota, a Jeanne d\u2019Arc e tantas outras, e outras ainda de que a Hist\u00f3ria n\u00e3o falou.<br><br>Patr\u00edcia Foito e Camis\u00e3o: Qual o papel das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o e das redes sociais nestas \u201cPrimaveras \u00c1rabes\u201d?<br>Nelly Jazra Bandarra: Se n\u00e3o tivesse havido estes meios de transmiss\u00e3o, teria sido muito dif\u00edcil, para n\u00e3o dizer imposs\u00edvel, mobilizar as pessoas. Mas eu gostaria de citar aqui o exemplo duma mulher que se tornou emblem\u00e1tica neste processo.<br>A egipc\u00eda Asma Mahfouz \u00e9 uma das primeiras a mobilizar as pessoas para se juntarem, no dia 25 de Janeiro de 2011, no Largo Tahrir. Muitas pessoas responderam como se j\u00e1 estivessem preparadas, sa\u00edram \u00e0 rua e n\u00e3o arredaram p\u00e9 at\u00e9 que Mubarak sa\u00edsse do poder. As pessoas acamparam nesta imensa pra\u00e7a, com tendas onde se abrigavam grupos de homens e mulheres. No princ\u00edpio tudo correu bem para as mulheres. <br>Os jovens utilizaram as redes sociais para transmitir o que se passava no local das manifesta\u00e7\u00f5es, em todos os pontos do pa\u00eds. Os que n\u00e3o podiam participar seguiam pela televis\u00e3o, pela internet e redes sociais. Quase todos tinham um telem\u00f3vel: comunicar era f\u00e1cil.<br>Patr\u00edcia Foito e Camis\u00e3o: Ser\u00e1 que a quest\u00e3o da igualdade entre homens e mulheres foi central nesses movimentos?<br>Nelly Jazra Bandarra: As redes sociais constitu\u00edram um factor de liberta\u00e7\u00e3o para as mulheres, n\u00e3o s\u00f3 a n\u00edvel das ideias, mas tamb\u00e9m a n\u00edvel do corpo. As raparigas tiravam fotografias nuas em frente a uma c\u00e2mara e transmitiam-nas pela internet. Uma foto que ficou c\u00e9lebre foi a da Magda, com uma rosa vermelha no cabelo.<br>Os islamistas, tamb\u00e9m presentes nas manifesta\u00e7\u00f5es, n\u00e3o viam com bons olhos a presen\u00e7a das mulheres na rua, a gritar e a reivindicar. Grupos organizados de homens atacaram as mulheres fisicamente, apalpando-as e at\u00e9 violando-as, para as obrigar a voltarem para casa. As mulheres foram amea\u00e7adas de repres\u00e1lias. O epis\u00f3dio mais marcante desses ataques foi por ocasi\u00e3o do dia 8 de Mar\u00e7o, na Pra\u00e7a Tahrir. Isso n\u00e3o as impediu, no entanto, de continuarem a estar presentes no espa\u00e7o p\u00fablico, mas exigiu uma organiza\u00e7\u00e3o por parte dos outros manifestantes no sentido de protegerem as mulheres. <br>O epis\u00f3dio de 8 de Mar\u00e7o (ano 2011) na Pra\u00e7a Tahrir, no Cairo, acabou mal: as mulheres foram levadas para a esquadra da pol\u00edcia, foram espancadas e torturadas, algumas foram obrigadas a submeterem-se a testes de virgindade. Extremamente degradante. Protestos dentro e fora do pa\u00eds, obrigaram a pol\u00edcia a libertar essas mulheres. A viol\u00eancia sexual foi utilizada para reprimir e humilhar as mulheres.<br>L\u00eddia: As mulheres nas ruas gritavam por democracia e empoderamento econ\u00f3mico, por aquilo que \u00e9 justo: a democracia e o direito. <br>Patr\u00edcia Foito e Camis\u00e3o: As mulheres participam nas revolu\u00e7\u00f5es, mas ser\u00e1 que beneficiaram das revolu\u00e7\u00f5es?<br>Nelly Jazra Bandarra: \u00c9 dif\u00edcil responder sim ou n\u00e3o. As mulheres \u00e1rabes beneficiaram com certeza do movimento das \u201cPrimaveras \u00c1rabes\u201d. Novas constitui\u00e7\u00f5es, consignando a igualdade entre mulheres e homens, foram referendadas e aprovadas. Houve progressos nas legisla\u00e7\u00f5es, por exemplo, quanto \u00e0 idade legal para se casar; o direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, a defesa das mulheres divorciadas\u2026 Mas ainda h\u00e1 que completar estas leis com outras que faltam. Remeto-vos para os pormenores que est\u00e3o no meu livro \u201cLes femmes dans les Printemps Arabes\u201d<br>Na quest\u00e3o da igualdade de g\u00e9nero, n\u00e3o se pode dizer que os objectivos tenham sido todos alcan\u00e7ados. Ainda h\u00e1 muito por fazer. A legisla\u00e7\u00e3o existe, mas parte dela n\u00e3o est\u00e1 a ser aplicada. No entanto, \u00e9 positivo que haja a possibilidade de as mulheres invocarem as leis para defenderem os seus direitos. \u00c9 um factor extremamente importante para a liberta\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o social da Mulher.<br>Dito isto, \u00e9 preciso ter a consci\u00eancia de que o sistema patriarcal n\u00e3o desapareceu. O grau de opress\u00e3o das mulheres depende da classe social, da educa\u00e7\u00e3o que t\u00eam, do lugar onde vivem. <br>H\u00e1 cr\u00edticos que dizem que as \u201cPrimaveras \u00c1rabes\u201d passaram \u00e0 hist\u00f3ria, acabaram, ponto final. Ora bem, \u00e9 preciso saber que h\u00e1 coisas que ficaram por escrito, e as mulheres que participaram de maneira activa no movimento, continuam a militar por esses mesmos direitos, seja em associa\u00e7\u00f5es ou grupos organizados da sociedade civil, seja em grupos que entretanto se formaram nas redes sociais.<br>As mulheres continuam a enfrentar muitas dificuldades na sua vida quotidiana, seja no trabalho, no relacionamento com pais, irm\u00e3os, na sociedade em geral. Mas os f\u00f3runs de debate na internet s\u00e3o muito \u00fateis e reconforta saber que n\u00e3o se est\u00e1 sozinha nesta luta pelos seus direitos.<br>Ainda que haja dificuldades, h\u00e1 menos opress\u00e3o. Pode-se dizer que as mulheres t\u00eam mais liberdade para expor os seus problemas. Apesar da nova mudan\u00e7a de regime, depois da queda das ditaduras, as mulheres podem exprimir-se, s\u00e3o menos escravizadas, mas n\u00e3o podem fazer tudo o que bem entendem, como seres livres, por exemplo, n\u00e3o se podem vestir como desejam. As mulheres \u00e1rabes t\u00eam mais limita\u00e7\u00f5es do que os homens \u00e1rabes. Isso tem que ver com o regime pol\u00edtico, com a sociedade e com o fortalecimento dos movimentos isl\u00e2micos.<br><br>Patr\u00edcia Foito e Camis\u00e3o: O que que se passou a seguir ao movimento da Pra\u00e7a Tahrir? <br>Nelly Jazra Bandarra: Nas primeiras elei\u00e7\u00f5es que houve depois de 2011, os islamistas tiveram a maioria no Egipto. Ser\u00e1 que havia movimentos pol\u00edticos democr\u00e1ticos suficientemente organizados para substituir os regimes existentes? Havia movimentos progressistas, socialistas, social-democratas e outros movimentos das esquerdas. Mas n\u00e3o foram eleitos. Os movimentos isl\u00e2micos actuaram \u00e0 luz do dia depois do desaparecimento do regime de Mubarak. Tinham base popular nas aldeais e sensibilizavam as popula\u00e7\u00f5es em nome de Allah, dizendo que eram os representantes leg\u00edtimos por falarem em nome da religi\u00e3o. Implantados nos meios rurais e nos bairros de lata, desempenharam o papel do Estado no apoio social \u00e0s popula\u00e7\u00f5es (servi\u00e7os de sa\u00fade, escola, apoio material \u00e0s fam\u00edlias). N\u00e3o havia outra ajuda, nem outra presen\u00e7a. Ali\u00e1s eles j\u00e1 estavam implantados antes das primeiras manifesta\u00e7\u00f5es de 2011, mas n\u00e3o podiam, nem tinham o direito de aparecer em p\u00fablico, por causa da repress\u00e3o que havia contra os Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos.<br>Em zonas urbanas, os movimentos isl\u00e2micos actuavam sobretudo nos arredores, perto dos bairros pobres, junto \u00e0s popula\u00e7\u00f5es desamparadas, que representavam milh\u00f5es de votos. Foram as camadas mais pobres do meio rural e dos bairros de lata urbanos que votaram no islamismo pol\u00edtico, nos Irm\u00e3os Mu\u00e7ulmanos. Os anseios e necessidades da popula\u00e7\u00e3o variam consoante as gera\u00e7\u00f5es. O pre\u00e7o do p\u00e3o, no entanto, fala mais alto. Por isso Mohamed Morsi foi eleito, e com ele a tentativa de controlo de todo a aparelho de estado.<br><br>Patr\u00edcia Foito e Camis\u00e3o: Quem vai apoiar as mulheres? Os que foram eleitos?<br>Nelly Jazra Bandarra: A maior manifesta\u00e7\u00e3o no Egipto foi contra o governo de Morsi: quase 23 milh\u00f5es de pessoas na rua. Ou seja: a recusa da ideologia isl\u00e2mica.<br>N\u00e3o ser\u00e1 esta ideologia isl\u00e2mica que vai apoiar os direitos das mulheres. Os islamistas s\u00e3o contra a evolu\u00e7\u00e3o e a favor do papel tradicional da mulher, limitando a sua interven\u00e7\u00e3o na sociedade. <br>\u00c9 preciso dizer que Mohamed Morsi foi deposto, tamb\u00e9m porque a sua pol\u00edtica se revelou um desastre. Ele n\u00e3o foi capaz de resolver os problemas econ\u00f3micos e sociais do Egipto. O pa\u00eds vivia dos recursos do turismo e dos pagamentos vindos do Canal de Suez. Sem esses recursos era imposs\u00edvel ter meios para fazer evoluir a sociedade.<br><br>Patr\u00edcia Foito e Camis\u00e3o: Qual foi a reac\u00e7\u00e3o da Europa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s \u201cPrimaveras \u00c1rabes\u201d?<br>Nelly Jazra Bandarra: Os pa\u00edses europeus tiveram medo dos movimentos. Tinham boas rela\u00e7\u00f5es com os regimes anteriores, faziam investimentos, e esses pa\u00edses eram importantes destinos tur\u00edsticos para os nacionais dos pa\u00edses europeus. Pode-se dizer que a for\u00e7a das manifesta\u00e7\u00f5es foi ignorada. N\u00e3o houve um grande interesse, nem houve apoio aos movimentos democr\u00e1ticos ou social-democratas. Em contrapartida, os grupos isl\u00e2micos receberam muita ajuda de outros pa\u00edses \u00e1rabes, mais conservadores. <br>Por outro lado, os pa\u00edses europeus tiveram medo de serem acusados de p\u00f3s-colonialistas. E n\u00e3o sabiam com quem estabelecer rela\u00e7\u00f5es, em quem confiar. N\u00e3o conheciam os novos movimentos surgidos das \u201cPrimaveras \u00c1rabes\u201d. As novas personalidades na cena pol\u00edtica eram jovens e com pouca experi\u00eancia do mundo pol\u00edtico.<br>No Egipto, Mohamed Morsi ficou pouco tempo no poder, enfrentando forte oposi\u00e7\u00e3o que receava que o poder voltasse \u00e0 rua. Nesse contexto, a interven\u00e7\u00e3o do ex\u00e9rcito levou ao poder o General Abdel Fattah al-Sissi.<br>Voltando aos direitos das mulheres: estes ficaram salvaguardados, o princ\u00edpio de igualdade de g\u00e9nero foi inscrito na Constitui\u00e7\u00e3o, aprovada por referendo. Mas a liberdade e o progresso s\u00e3o limitados. A nova gera\u00e7\u00e3o de mulheres vai ter de lutar para continuar a avan\u00e7ar. A evolu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 lenta. O espa\u00e7o p\u00fablico \u00e9 mais dificilmente acess\u00edvel. Manter o n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o para todos \u00e9 dar oportunidade \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es.<br>H\u00e1 pa\u00edses \u00e1rabes onde a situa\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 muito pior do que aquela que existe no Egipto e na Tun\u00edsia. Temos que recolher mais informa\u00e7oes sobre a condi\u00e7\u00e3o das mulheres em outros pa\u00edses \u00e1rabes, como por exemplo nos pa\u00edses \u00e1rabes do Golfo. Mas os paises que tem pior condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o o I\u00e9men e a Ar\u00e1bia Saudita.<br><br>Segundo a classifica\u00e7\u00e3o internacional do Relat\u00f3rio do World Economic Forum de 2016, o I\u00e9men, est\u00e1 o ultimo na classifica\u00e7\u00e3o como sendo o pior pa\u00eds, \u00e9 seguido pela S\u00edria, a Ar\u00e1bia Saudita, o Qatar e o Koweit.<br><br><\/p>\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trata-se de um livro sobre as futuras gera\u00e7\u00f5es com um enfoque particular nas mulheres, tantas vezes ignoradas apesar de serem a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o. <span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/2022\/06\/08\/capitulo-8-as-mulheres-nas-primaveras-arabes\/\">Lire la suite<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":110,"featured_media":3467,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["entry","author-mulheres","has-excerpt","post-3454","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mci"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3454","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/users\/110"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3454"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3454\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3467"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3454"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}