{"id":3465,"date":"2022-06-09T18:25:29","date_gmt":"2022-06-09T16:25:29","guid":{"rendered":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/?p=3465"},"modified":"2022-06-10T17:22:00","modified_gmt":"2022-06-10T15:22:00","slug":"capitulo-9-as-mulheres-no-libano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/2022\/06\/09\/capitulo-9-as-mulheres-no-libano\/","title":{"rendered":"Cap\u00edtulo 9 : As Mulheres no L\u00edbano"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"https:\/\/go.ivoox.com\/rf\/88303178\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/go.ivoox.com\/rf\/88303178<\/a><br>Rose Marie Chahine \u00e9 cidad\u00e3 libanesa, professora na Universidade Libanesa de Beirute, no Departamento de Filosofia, e tamb\u00e9m no Departamento de Cinema da Faculdade de Belas Artes. Ela pertence \u00e0 comunidade maronita  o que ajuda a compreender as suas actividades.<br>A Professora Rose Marie Chahine foi membro do j\u00fari do Festival de Cinema de Beirute \u201cWomen for change\u201d (13 a 18 de Mar\u00e7o 2018), que teve lugar nos \u201cGrands Cinemas\u201d Achrafieh e Verdun.<br>Nesta entrevista, de 19 de Abril de 2018, Rose Marie Chahine, fala do L\u00edbano, das mulheres libanesas e dos filmes realizados por realizadoras libanesas. <br><br>Nelly Jazra Bandarra: Rose Marie Chahine, pode come\u00e7ar por nos falar de si e do seu percurso acad\u00e9mico e profissional? <br>Rose Marie Chahine: Estudei Psicologia e Filosofia, colaborei com organiza\u00e7\u00f5es femininas. Na \u00e1rea da Psicoterapia, tive igualmente forma\u00e7\u00e3o como mediadora conjugal e trabalhei na Associa\u00e7\u00e3o \u201cFam\u00edlia\u201d com casais em dificuldade. E agora sou respons\u00e1vel de uma funda\u00e7\u00e3o, a Funda\u00e7\u00e3o Chahine, nome de fam\u00edlia do meu marido, que \u00e9 o fundador. O objectivo \u00e9 formar as pessoas na arte do Cinema. Enquanto consultora de psicologia, a minha tarefa \u00e9 um pouco particular: analiso as personalidades das personagens com doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas ou com problemas de personalidade. <br>Nelly Jazra Bandarra: Quais as causas a que se dedica?<br>Rose Marie Chahine: Devo dizer, em primeiro lugar, que trabalhar na Universidade Libanesa \u00e9 em si um compromisso. As condi\u00e7\u00f5es de trabalho s\u00e3o dif\u00edceis, os professores estiveram recentemente em greve por causa das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e das instala\u00e7\u00f5es antiquadas. \u00c9 terr\u00edvel quando se v\u00ea as casas de banho, as mesas e os bancos partidos. E o L\u00edbano n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds subdesenvolvido . \u201cEsta universidade \u00e9 a imagem do pa\u00eds.  Cada vez que h\u00e1 uma crise, ela, a Universidade Libanesa, sofre\u201d.<br>A luta contra a viol\u00eancia de g\u00e9nero \u00e9 uma das causas a que me dedico: participei num programa de televis\u00e3o sobre a luta das mulheres contra a viol\u00eancia, em colabora\u00e7\u00e3o com a Associa\u00e7\u00e3o Kafa, que presta aux\u00edlio \u00e0s mulheres violentadas. Nesse programa, de tipo mesa redonda, com a presen\u00e7a de um psic\u00f3logo, de um jurista e por vezes de um representante religioso (maronita ), as convidadas contavam as suas hist\u00f3rias. Os testemunhos destas mulheres permitiram p\u00f4r em destaque problemas de que ningu\u00e9m queria falar.<br>Em 2014 foi aprovada uma lei contra a viol\u00eancia conjugal na sequ\u00eancia das lutas das organiza\u00e7\u00f5es feministas. A lei foi aprovada depois de uma mulher ter sido morta pelo marido. Mais um assassinato, que veio a lume. A lei foi aprovada, mas houve oposi\u00e7\u00e3o por parte das autoridades religiosas que consideravam esta quest\u00e3o da compet\u00eancia dos tribunais religiosos e n\u00e3o dos tribunais civis.<br><br>Nelly Jazra Bandarra: Fale-nos da concilia\u00e7\u00e3o conjugal. <br>Rose Marie Chahine: A Igreja Maronita, que disp\u00f5e do seu tribunal conjugal, criou a Associa\u00e7\u00e3o Fam\u00edlia. Quando os casais recorrem ao tribunal fazem-lhes a pergunta: querem-se separar? N\u00e3o se tenta ver se h\u00e1 uma reconcilia\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Muitas vezes considero que esta reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Alguns casais querem ser ajudados. Por outro lado, no caso de separa\u00e7\u00e3o do casal,  a nossa associa\u00e7\u00e3o \u201cFam\u00edlia\u201d tenta melhorar as rela\u00e7\u00f5es entre os c\u00f4njuges e seus filhos, para que os filhos consigam continuar a ter uma rela\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia com os dois pais, apesar da separa\u00e7\u00e3o. Conseguimos resultados positivos. H\u00e1 casais que se reconciliaram. Outros separam-se mas com condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para os filhos. <br>Na Europa, h\u00e1 o que se chama uma \u201cguarda alternada dos filhos\u201d. No L\u00edbano n\u00e3o existe, \u00e0s vezes o pai n\u00e3o v\u00ea os filhos durante meses. N\u00f3s defendemos que os filhos possam contar com os dois pais, como geralmente ficam em casa da m\u00e3e, que possam ver o pai sempre que precisem.<br>No processo, os pais assinam um pacto de entendimento para que a separa\u00e7\u00e3o se passe em boas condi\u00e7\u00f5es. Depois passam pelo tribunal, para a separa\u00e7\u00e3o, mas as duas partes t\u00eam os seus direitos preservados.<br><br>Nelly Jazra Bandarra: O que \u00e9 importante para si na quest\u00e3o da igualdade de oportunidades?<br>Rose Marie Chahine: No L\u00edbano a mulher tem mais direitos do que noutros pa\u00edses \u00e1rabes. Mas a legisla\u00e7\u00e3o permanece ainda muito conservadora, quando a mulher libanesa \u00e9 aberta, tendo absorvido elementos de cultura europeia. A legisla\u00e7\u00e3o, no entanto,  n\u00e3o seguiu esta evolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caso dos casamentos precoces arranjados pelas fam\u00edlias. N\u00e3o h\u00e1 uma lei que fixe a idade m\u00ednima para o casamento das raparigas. H\u00e1 agora um projecto de lei para fixar esta idade aos 16 anos. Tradicionalmente a rapariga era prometida e o esposo podia dispor dela com a idade de 13 ou 14 anos. Isso acontece ainda nas aldeias, mas tamb\u00e9m em meios urbanos onde o n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais baixo. Ora, quando a mulher \u00e9 abandonada pelo esposo, n\u00e3o tem hip\u00f3tese de ser reintegrada na sociedade, n\u00e3o tem forma\u00e7\u00e3o suficiente e por consequ\u00eancia poucas possibilidades de encontrar trabalho.<br>No L\u00edbano, o estatuto das mulheres \u00e9 definido em fun\u00e7\u00e3o das diferentes comunidades religiosas , pelo que n\u00e3o h\u00e1 um estatuto unificado nacional para todas as mulheres. Consoante as comunidades, os tribunais julgam uma mesma situa\u00e7\u00e3o de forma diferente. As pessoas s\u00e3o capazes de mudar de religi\u00e3o para ter um div\u00f3rcio mais f\u00e1cil ou para n\u00e3o pagar uma indemniza\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher. Em geral \u00e9 o marido que escolhe a situa\u00e7\u00e3o mais favor\u00e1vel.<br>Os jovens, mas n\u00e3o apenas, pedem agora a instaura\u00e7\u00e3o do casamento civil. Alguns casais tentam um casamento civil, junto das autoridades locais favor\u00e1veis, sem terem a certeza da sua validade. Muitas pessoas v\u00e3o casar a Chipre ou \u00e0 Gr\u00e9cia, pelo civil,  e este casamento \u00e9 reconhecido no L\u00edbano. Em Chipre existe toda uma organiza\u00e7\u00e3o montada prestes a acolher os casais que a esta jurisdi\u00e7\u00e3o recorrem. \u00c0s vezes fazem tamb\u00e9m um casamento religioso. Mas as mulheres devem estar cientes da \u201carmadilha\u201d que \u00e9 o casamento religioso, porque o marido pode sempre escolher converter-se a outra religi\u00e3o para obter um div\u00f3rcio mais favor\u00e1vel.<br>Nelly Jazra Bandarra: Como aconteceu passar da an\u00e1lise filos\u00f3fica \u00e0 an\u00e1lise cinematogr\u00e1fica?<br>Rose Marie Chahine: Passei da Psicologia \u00e0 Filosofia, em seguida \u00e0 Sociologia, quando escrevi uma tese sobre \u201cConnaissances objectives\u201d, e depois abordei a quest\u00e3o da terapia \u201ccognitiva\u201d.<br>Ensinei Psicologia aos alunos de Arte Dram\u00e1tica na Funda\u00e7\u00e3o Emile Chahine, com o tema \u201cDo racional ao irracional\u201d e depois aos estudantes de Arte Dram\u00e1tica da Universidade Libanesa. Procurei fornecer um suporte material ao programa curricular. Tem de haver um suporte material. Utilizei as artes audiovisuais como suporte das minhas an\u00e1lises, com elementos que necessitam de refer\u00eancias culturais. Assim comecei a trabalhar nesse dom\u00ednio, paralelamente ao curso que dava na Universidade Libanesa.<br>O meu marido dava aulas sobre o Cinema. Eu comecei a escolher personagens para analisar. Por exemplo a personagem hist\u00e9rica de Blanche Dubois, representada por Viviane Leigh, no filme \u201cUm el\u00e9trico chamado desejo\u201d. V\u00ea-se assim como \u00e9 a vida de uma personagem psic\u00f3tica.<br>Esta abordagem utilizando o cinema no dom\u00ednio da psicologia \u00e9 muito inovadora. Toma-se outro filme e outra personagem real como Virginia Wolf que \u00e9 uma personagem bipolar e trabalha-se na sua an\u00e1lise; outros exemplos s\u00e3o Winston Churchill e a sua depress\u00e3o, ou  a personagem do Hitchcock.<br><br>Nelly Jazra Bandarra: Sobre o Festival \u201cWomen for change\u201d (13 a 18 de Mar\u00e7o de 2018)<br>Rose Marie Chahine: O Festival foi organizado pela Beirute Film Society. Eles convidaram-me para ser presidente do j\u00fari, o que aceitei com muito entusiasmo. Era j\u00e1 tempo de organizar um festival que pusesse em valor a mulher libanesa e a sua participa\u00e7\u00e3o na sociedade. Este festival de cinema das mulheres abordou a quest\u00e3o do dia 8 de Mar\u00e7o, que \u00e9 o Dia Internacional da Mulher, e tamb\u00e9m ocorreu num momento da campanha eleitoral para as legislativas, marcadas para o m\u00eas de Maio (de 2018), em que um grande n\u00famero de mulheres s\u00e3o candidatas.<br>Aceitei essa responsabilidade, sim. A mulher \u00e9 muito importante no cinema liban\u00eas enquanto realizadora, produtora e atriz. Os filmes neste Festival \u201cWomen for Change\u201d falam dos problemas da mulher libanesa e das mulheres \u00e1rabes, mas tamb\u00e9m das mulheres de outros pa\u00edses, porque h\u00e1 filmes de muitos outros pa\u00edses. <br>No que toca a cineastas libanesas, temos 10 mulheres realizadoras conhecidas a n\u00edvel internacional. Posso citar o exemplo de Jacqueline Saab radicada em Paris que roda os seus filmes no L\u00edbano; Leila Assaf, radicada na Su\u00e9cia e que aborda as problem\u00e1ticas da mulher libanesa; Nadine Labak\u00e9, que vive no L\u00edbano e cujo \u00faltimo filme \u201cCapharna\u00fcm\u201d foi visionado e selecionado no Festival de Cannes; Randa Chahal, j\u00e1 falecida, ganhou um pr\u00e9mio no Festival de Veneza; Danielle Arbib; Lara Saba; Dima el Horr. Todas elas trabalharam sobre quest\u00f5es ligadas \u00e0 mulher libanesa. Algumas vivem fora do L\u00edbano, outras aqui mesmo.<br>Nelly Jazra Bandarra: Na Europa e na B\u00e9lgica esses filmes pouco passam. Talvez no Festival do Cinema Mediterr\u00e2nico e no Festival do Cinema \u00c1rabe, em Bruxelas. A realizadora mais conhecida \u00e9 Nadine Labaki, cujos filmes passaram em salas de cinema com vastas audi\u00eancias, como \u201cCaramel\u201d, \u201cEt maintenant o\u00f9 on va?\u201d.<br>Rose Marie Chahine: Alguns exemplos das tem\u00e1ticas dos filmes libaneses e estrangeiros deste Festival \u201cWomen for change\u201d: uma jovem universit\u00e1ria que estuda em Paris e que se v\u00ea confrontada com v\u00e1rios problemas. O filme chama-se \u201cLa Parisienne\u201d, de Danielle Arbid. Obteve o primeiro pr\u00e9mio  do filme de longa metragem do Festival. Outra tem\u00e1tica \u00e9 o problema do casamento precoce, abordado no filme \u201cNour\u201d, uma rapariga, crian\u00e7a, ainda a brincar, cuja m\u00e3e vem dizer-lhe que j\u00e1 tem um marido. Ou ent\u00e3o o problema duma jovem emigrante de segunda gera\u00e7\u00e3o que decide voltar \u00e0 aldeia dos pais, e instalar-se na casa familiar abandonada: \u00e9 o bonito filme \u201cGo home\u201d, de Jihane Chouaib. O problema duma jovem mulher que tem a cargo toda a fam\u00edlia, porque s\u00e3o doentes ou n\u00e3o querem trabalhar, o filme conta como ela \u00e9 explorada pela fam\u00edlia. O tema \u00e9 retomado no excelente filme croata intitulado \u201cNe pique pas dans mon assiette\u201d, do realizador Hannah Judic. O filme marroquino \u201cInsoumise\u201d aborda o tema da explora\u00e7\u00e3o da mulher no trabalho. Cada filme deste Festival suscita um ou mais problemas das mulheres libanesas e \u00e1rabes, e tudo est\u00e1 relacionado com tudo. \/?\/?\/ est\u00e1 tudo interligado.<br><br>Nelly Jazra Bandarra: Haver\u00e1 diferen\u00e7a entre a situa\u00e7\u00e3o das mulheres libanesas e a situa\u00e7\u00e3o das mulheres de outros pa\u00edses \u00e1rabes?<br>Rose Marie Chahine: Os problemas s\u00e3o os mesmos, mas vividos de maneira diferente. A mulher libanesa, como j\u00e1 disse, \u00e9 moderna, viaja, tem acesso a muitas coisas, ainda que n\u00e3o tenha muitos recursos. Mas a legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 muito conservadora. H\u00e1 tamb\u00e9m problemas econ\u00f3micos. Por exemplo, os sal\u00e1rios das mulheres s\u00e3o bastante mais baixos do que os dos homens. \u00c9 por isso que certas sociedades favorecem o emprego das mulheres porque assim t\u00eam muitos menos custos salariais. Mas n\u00e3o s\u00e3o postos de futuro. Os empregadores tamb\u00e9m economizam nas compensa\u00e7\u00f5es e indemniza\u00e7\u00f5es, porque pensam que as mulheres n\u00e3o v\u00e3o trabalhar at\u00e9 \u00e0 idade da reforma. H\u00e1 muita explora\u00e7\u00e3o laboral e a mulher \u00e9 v\u00edtima.<br>Ainda h\u00e1 os problemas das pessoas idosas, na sua maioria mulheres, cujas fam\u00edlias n\u00e3o as podem ter a seu cargo. As pens\u00f5es s\u00e3o muito baixas ou n\u00e3o existem. H\u00e1 tamb\u00e9m os casos de mulheres portadoras de defici\u00eancia ou com doen\u00e7as graves.<br>Uma mulher funcion\u00e1ria p\u00fablica pode inscrever o marido e os filhos na Seguran\u00e7a Social. Nos sectores privados a mulher n\u00e3o tem esse direito, mesmo quando faz o mesmo trabalho que no sector p\u00fablico. H\u00e1 tamb\u00e9m as doen\u00e7as de natureza psicol\u00f3gica ou psiqui\u00e1trica, cujo tratamento \u00e9 muito caro e n\u00e3o \u00e9 reembolsado pela seguran\u00e7a social.  <br>Os problemas das pessoas com defici\u00eancia s\u00e3o abordados no filme \u201cZyara\u201d, de Murielle  Aboulrous, uma jovem realizadora libanesa que fez um trabalho admir\u00e1vel. Nas suas entrevistas, Murielle apresenta os casos de mulheres doentes e com defici\u00eancias f\u00edsicas e mentais. O filme est\u00e1 a provocar um movimento de tomada de consci\u00eancia no p\u00fablico. Muitas pessoas portadoras de defici\u00eancia identificaram-se com aqueles casos. A realizadora \u00e9 agora contactada n\u00e3o s\u00f3 por associa\u00e7\u00f5es de mulheres que querem apresentar os seus testemunhos, a fim de insistir sobre este problema junto dos poderes p\u00fablicos, como tamb\u00e9m por pessoas que querem simplesmente exprimir a sua solidariedade.<br>Falando do filme que foi apresentado na abertura do Festival \u201cWomen for change\u201d, \u00e9 o filme eg\u00edpcio \u201cA day for women\u201d, com a presen\u00e7a da atriz principal, Elham Chahine, assim como da realizadora Kamla Abou Zekri. Trata-se de um filme admir\u00e1vel onde se v\u00ea como as mulheres podem ser solid\u00e1rias. \u201cUm dia na piscina\u201d \u00e9 a consagra\u00e7\u00e3o de um dia por semana para a mulheres de um bairro pobre da cidade do Cairo. \u00c9 um bom filme, mas tem um aspecto um pouco caricatural, um pouco \u00e0 maneira eg\u00edpcia, que utiliza a caricatura para veicular a mensagem. Elham Chahine n\u00e3o \u00e9 somente actriz, \u00e9 tamb\u00e9m militante, conhecida, por ter trabalhado muito em prol da igualdade das mulheres no Egipto. Foi muitas vezes criticada, mas continua a batalhar por essa causa. Naquele filme, ela reivindica o direito das mulheres eg\u00edpcias a terem os mesmos privil\u00e9gios que os homens. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o nenhuma  que justifique que s\u00f3 os homens possam usufruir de servi\u00e7os sociais. No filme, por exemplo, as mulheres fazem as suas reivindica\u00e7\u00f5es, organizam-se, revoltam-se e conseguem que a piscina seja acess\u00edvel s\u00f3 para as mulheres durante um dia por semana. Com uma simples mudan\u00e7a opera-se uma mudan\u00e7a radical nas suas vidas e na vida do bairro.<br><br>Nelly Jazra Bandarra: Falemos agora das mulheres nas elei\u00e7\u00f5es de Maio de 2018<br>Rose Marie Chahine: A elevada instru\u00e7\u00e3o das libanesas, a sua capacidade de falar l\u00ednguas estrangeiras, a sua abertura cultural (explicada tamb\u00e9m pela posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica do L\u00edbano, face ao Mar Mediterr\u00e2neo) encorajou a sociedade a ultrapassar certos tabus e a fazer evoluir os aspectos tradicionais mais rapidamente do que noutros pa\u00edses \u00e1rabes. Mas as leis est\u00e3o sempre em atraso e contamos com as elei\u00e7\u00f5es para fazer avan\u00e7ar as coisas, porque agora temos apenas quatro mulheres no Parlamento liban\u00eas. Depois das elei\u00e7\u00f5es de Maio pr\u00f3ximo, esperamos ter muitas mais mulheres. Houve 105 mulheres candidatas, um quinto das candidaturas, mas n\u00e3o foram inclu\u00eddas em listas eleitorais e o seu n\u00famero caiu para 84. No L\u00edbano, cada eleitor escolhe uma lista e tamb\u00e9m escolhe um candidato priorit\u00e1rio. Por isso o n\u00famero de mulheres caiu. As listas que t\u00eam a possibilidade de ganhar s\u00e3o presididas por pol\u00edticos bem implantados e que muitas vezes n\u00e3o t\u00eam mulheres nas suas listas. Ent\u00e3o as mulheres t\u00eam poucas oportunidades de se apresentarem. Algumas listas integraram de facto mulheres. Durante o Festival \u201cWomen for Change\u201d pedimos a uma candidata que viesse dar uma confer\u00eancia sobre este tema para sensibilizar para o acto eleitoral. Esta pessoa conta com apoio e tem chances de vir a ser eleita.<br>Mas por exemplo na regi\u00e3o do Akkar (Norte do pa\u00eds) n\u00e3o havia mulheres inclu\u00eddas nas listas. Ent\u00e3o 5 mulheres criaram a sua pr\u00f3pria lista. As outras listas tinham 8 pessoas.  Elas t\u00eam poucas possibilidades de ganhar, mas t\u00eam de continuar at\u00e9 ao fim e espero que o fa\u00e7am. <br>Nelly Jazra Bandarra: H\u00e1 muitas mulheres eleitoras? Elas votam? <br>Rose Marie Chahine: As mulheres s\u00e3o eleitoras e v\u00e3o votar. A absten\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 por parte das mulheres, elas est\u00e3o mobilizadas. A reac\u00e7\u00e3o do eleitorado em geral \u00e9 a favor das candidaturas femininas, certamente nos meios intelectuais, mas n\u00e3o s\u00f3. Muitos jovens e casais novos v\u00e3o trabalhar para o estrangeiro. Eles s\u00e3o demasiado qualificados para encontrarem trabalho no L\u00edbano. No estrangeiro, obt\u00eam bons empregos. As pessoas consideram &#8211; \u00e9 uma ideia que circula &#8211; que se houver um n\u00famero suficiente de mulheres, elas v\u00e3o fazer as reformas do mercado do trabalho e da seguran\u00e7a social para evitar a emigra\u00e7\u00e3o dos jovens.<br>No L\u00edbano, quase todos os casais que t\u00eam \u00e0 volta dos cinquenta anos, t\u00eam os filhos que emigraram e t\u00eam postos de trabalho importantes em grandes sociedades estrangeiras. Isso \u00e9 muito triste: pensar que eles v\u00e3o envelhecer sozinhos, longe dos filhos e que os filhos n\u00e3o v\u00e3o voltar.<br>As mulheres que est\u00e3o em listas fortes (quer dizer, com um pol\u00edtico proeminente a presidir a lista), t\u00eam uma hip\u00f3tese de ganhar, mas n\u00e3o as outras que est\u00e3o em listas s\u00f3 de mulheres ou em listas de partidos mais fracos. Se n\u00e3o tivesse havido mudan\u00e7a da lei eleitoral, as mulheres tinham tido mais oportunidades, porque se podiam escolher candidatas mulheres noutras listas e acrescent\u00e1-las \u00e0 lista escolhida. Agora com a nova lei eleitoral, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Houve pessoas a darem explica\u00e7\u00f5es aos eleitores sobre a maneira de votar com a nova lei, porque n\u00e3o se pode barrar nomes, sen\u00e3o o boletim fica nulo. Elas explicaram que n\u00e3o se podia fazer como antes. Em tais  condi\u00e7\u00f5es \u00e9 dif\u00edcil prever os resultados para as mulheres. <br>Nelly Jazra Bandarra: E a igualdade entre homens e mulheres nos programas eleitorais?<br>Rose Marie Chahine: Muitos dos candidatos querem a igualdade, mas a maior parte deles falam mais de outros problemas: o meio ambiente, sobretudo o problema do lixo que \u00e9 uma quest\u00e3o grav\u00edssima no L\u00edbano, o saneamento, a polui\u00e7\u00e3o a emigra\u00e7\u00e3o o problema das fam\u00edlias. Al\u00e9m disso, h\u00e1 tamb\u00e9m os problemas econ\u00f3micos.<br>Nelly Jazra Bandarra: Segundo ouvi, os pol\u00edticos nos seus discursos n\u00e3o falam muito das mulheres. Por outro lado, achei muito cruel que as mulheres tivessem sido exclu\u00eddas como potenciais candidatas. O que fora previsto por eles no in\u00edcio, n\u00e3o foi respeitado. <br>Na minha opini\u00e3o eles est\u00e3o voltados para outras problem\u00e1ticas que atraem mais o eleitorado. As mulheres candidatas foram dispersas nas listas. N\u00e3o tenho elementos suficientes para saber exatamente quantas mulheres ficaram. Procurei bastante, mas n\u00e3o consegui resultados.<br><br>Nelly Jazra Bandarra: E as quotas?<br> Rose Marie Chahine: O Conselho das Mulheres Libanesas pediu, antes das elei\u00e7\u00f5es, que os partidos pol\u00edticos introduzissem quotas (30%), mas isso n\u00e3o foi aceite, e n\u00e3o houve nenhuma decis\u00e3o das autoridades p\u00fablicas. Ter\u00e1 de se ver, depois das elei\u00e7\u00f5es, se alguma proposta vai ser apresentada. A meu ver, as quotas seriam uma boa solu\u00e7\u00e3o. Por exemplo, fixar um n\u00famero de lugares no Parlamento para as mulheres. O que \u00e9 triste \u00e9 a estrutura confessional. H\u00e1 lugares repartidos por comunidades religiosas: tanto para os maronitas, tanto para os greco-ortodoxos, tanto para os sunitas, tanto para os xiitas \u2026, mas nada para as mulheres. <br>Nas listas de mulheres, por exemplo : se faltar uma mulher da comunidade greco-ortodoxa numa lista, nenhuma mulher de outra confiss\u00e3o pode ir substituir a que falta.  Para as elei\u00e7\u00f5es, havia uma lista eleitoral de 5 mulheres, mas faltava uma candidata da comunidade alauita e outra da comunidade ortodoxa, e os lugares n\u00e3o foram preenchidos. <br>As mulheres denunciaram a atitude machista e tradicional de colocar os homens politicamente fortes e de afastar as mulheres. <br>O problema do L\u00edbano \u00e9 a sobreposi\u00e7\u00e3o das identidades pol\u00edtica e a religiosa. Nas elei\u00e7\u00f5es o car\u00e1cter confessional sobrep\u00f5e-se ao car\u00e1cter nacional. Acho que devemos trabalhar para o nosso pa\u00eds, n\u00e3o para a nossa religi\u00e3o. <br>Nelly Jazra Bandarra: As perspectivas de futuro&#8230;<br>Rose Marie Chahine: Tem de se dar \u00e0 mulher a possibilidade de participar no destino do pa\u00eds. Houve muitos abusos na pol\u00edtica. H\u00e1 quem diga que as mulheres est\u00e3o mais centradas no bem p\u00fablico do que nos seus pr\u00f3prios interesses. \u00c9 evidente que h\u00e1 pol\u00edticos honestos, mas h\u00e1 muitos esc\u00e2ndalos e muito desleixo. <br>O que se faz de bom \u00e9 a maior parte das vezes feito pela iniciativa das pessoas, por iniciativa privada.<br>O Estado tem de assumir mais compromissos, sobretudo porque a maior parte das pessoas n\u00e3o disp\u00f5em de capitais privados. Tem de haver um Estado que d\u00ea prioridade ao interesse p\u00fablico.<br>Pela minha parte, espero que as mulheres estejam mais conscientes e participem mais, apesar de sabermos que no L\u00edbano a pol\u00edtica \u00e9 muito complicada. Devemos trabalhar por um L\u00edbano melhor.<br>As mulheres libanesas t\u00eam de dar o exemplo aos outros pa\u00edses \u00e1rabes, porque apesar de tudo, a sua situa\u00e7\u00e3o \u00e9 melhor em termos de igualdade, e houve uma evolu\u00e7\u00e3o mais positiva.<br><br>NB: As elei\u00e7\u00f5es legislativas no L\u00edbano tiveram lugar no dia 6 de Maio de 2018 e somente 6 mulheres foram eleitas, mais duas do que na legislatura anterior, o que constitui um resultado decepcionante \u00e0 luz do esfor\u00e7o brutal desenvolvido por todas as mulheres candidatas e seus apoiantes. Elas representam 4,68 % dos deputados (128 deputados no total). Entre as novas deputadas, uma \u00e9 irm\u00e3 do antigo Primeiro-Ministro Hariri (Bahia Hariri) e a outra \u00e9 casada com um pol\u00edtico (Setrida Geagea). As outras quatro s\u00e3o Paulette Yacoubian, (uma mulher de grande qualidade e que merece apoio), Dima Jamali, Rola Tabch Jaroudi, Inaya Ezzedine. Um resultado decepcionante comparado com o esfor\u00e7o brutal fornecido por todas as mulheres candidatas e seus pelos apoiantes. <br><br>Notas<br> i A igreja Maronita de Antioquia \u00e9 uma igreja cat\u00f3lica, de rito oriental, em plena comunh\u00e3o com a S\u00e9 Apost\u00f3lica, ou seja, reconhece a autoridade do Papa, o Sumo Pont\u00edfice da Igreja Cat\u00f3lica. A sua origem remonta \u00e0 comunidade fundada por Maron, um monge sir\u00edaco-arameu do s\u00e9culo IV venerado como santo. O primeiro patriarca maronita, S\u00e3o Jo\u00e3o Marun, foi eleito no final do s\u00e9culo VII.<br>Embora em n\u00famero relativamente reduzido hoje em dia, os Maronitas ainda s\u00e3o um dos principais grupos etnorreligiosos no L\u00edbano. A Igreja Maronita afirma que, desde o come\u00e7o, foi sempre fiel \u00e0 Santa S\u00e9 e ao Papa.[2] Esta comunh\u00e3o total foi reafirmada em 1182. (Wikipedia)<br><br>  A Professora Rose Marie Chahine considera o pa\u00eds como sendo desenvolvido. De facto, h\u00e1 contradi\u00e7\u00f5es porque por um lado temos aspectos que mostram um pa\u00eds bastante avan\u00e7ado (fala-se por exemplo da Medicina onde se fazem transplantes ou opera\u00e7\u00f5es complicadas, das novas tecnologias&#8230;) e por outro h\u00e1 popula\u00e7\u00f5es pobres e regi\u00f5es desertificadas, sem esquecermos os dois milh\u00f5es de refugiados s\u00edrios.<br><br>  Existem 17 comunidades ou confiss\u00f5es religiosas e cada uma tem o seu estatuto pr\u00f3prio no que toca \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o das leis que regem a vida das pessoas tal como o casamento, o div\u00f3rcio, a filia\u00e7\u00e3o\u2026 <br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/files\/2022\/06\/5ea0473a250000860ceb01a2-1024x576.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3479\" width=\"453\" height=\"251\" \/><figcaption>Dans un supermarche<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta entrevista, de 19 de Abril de 2018, Rose Marie Chahine, fala do L\u00edbano, das mulheres libanesas e dos filmes realizados por realizadoras libanesas. <span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/2022\/06\/09\/capitulo-9-as-mulheres-no-libano\/\">Lire la suite<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":110,"featured_media":3478,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["entry","author-mulheres","has-excerpt","post-3465","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-mci"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3465","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/users\/110"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3465"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3465\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3478"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radioalma.eu\/mulheres\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}