Capítulo 10: O COMBATE DAS MULHERES IRANIANAS

Entrevista de Nelly Jazra Bandarra por Patrícia Feito e Camisão

A Nelly teve a ocasião de ir ao Irão em fins de Abril, princípios de Maio de 2018. Quais foram as suas impressões?

Foi uma experiência recente a partilhar, uma visita feita num contexto turístico. Chegámos a Xiraz e fizemos o percurso até Teerão, passando por Yazd, Ispaão, Cashan… Ispaão é a mais maravilhosa de todas as cidades, tem um ambiente especial e características particulares por causa das suas praças, palácios, mesquitas, fontes…

Os elementos históricos são muito importantes, falamos de 4000 anos de História. É a parte que atrai mais os turistas: um milhão por ano, para já, podia ser muito mais. O turismo tem crescido, mas é limitado e controlado. O Irão quer dar outra imagem do país e pretende abrir-se ao Mundo. Um constrangimento para as mulheres estrangeiras: ter que pôr um véu na cabeça e vestir-se de maneira decente com os braços cobertos e saias não muito curtas.

Patrícia: Como aparece o seu interesse pelo Irão, sobretudo porque está a finalizar um artigo sobre as mulheres iranianas[i]?

Pela minha origem libanesa, há uma certa proximidade cultural. Existem traços de História comuns, em particular por causa do domínio do Império Persa que precedeu a chegada das invasões arabo-muçulmanas.

Tem práticas específicas por causa de se praticar o Islão xiita. Por outro lado, uma amiga minha, professora na Universidade do Líbano passou muitos anos neste país e organiza visitas para os seus alunos e colegas. Além disso, o Instituto de Sociologia da ULB (Université Libre de Bruxelles), com a professora Firouzeh Nahavandi, que escreveu um livro intitulado “Être femme en Iran[ii], organizou algumas conferências  sobre este país, uma delas sobre as imagens da publicidade no Irão, que foi apresentada pelo Vincent Eiffling, um especialista do Irão, que acompanhou a nossa viagem, dando explicações bastante interessantes, sobre a parte histórica, mas não só, o que facilita a percepção do país e do seu passado.

Os estrangeiros são bem acolhidos. São saudados na rua com uma palavra amável, os jovens querem conversar, e muitos até querem tirar fotografias connosco, talvez queiram guardar uma lembrança de pessoas diferentes.

 A situação tem evoluído nos últimos anos e há uma vontade de abertura ao exterior.

Patrícia: Não é assim que em geral se vê este país. A imagem é mais dum país fechado e com repressão. Como é a vida para as mulheres, não o que se vê, mas também o que se sabe?

Sobre a repressão em geral, como estrangeiros, não se vê. É evidente que segundo a Amnistia Internacional há presos políticos e repressão impedindo a oposição ao regime. É um país controlado a nível político, onde não se pode dizer tudo. O que uma pessoa vê na rua pode ser diferente do que se passa por trás. É um país controlado politicamente apesar duma certa liberalização trazida pelo Presidente Rohani. O regime admite uma oposição crítica dentro do regime, mas não a que o quer mudar. Não esqueçamos que há muitas tensões internacionais sobretudo com os acordos em matéria nuclear que determinam muita coisa. Quando os acordos foram assinados levantaram-se as sanções e foi uma maneira de relançar a actividade do país. Foi uma pressão muito forte do exterior que o obrigou a fechar-se, enquanto a abertura aliviou o país sobretudo economicamente[iii].

Patrícia: Em 1979, há uma revolução contra o Xá. Porquê? Qual foi o impacto da mudança do regime sobre as mulheres?

O Xá tinha açambarcado o poder e as riquezas nacionais e dava muitas concessões ao estrangeiro (a sociedades estrangeiras). Reinava grande corrupção à sua volta. O açambarcamento das riquezas conduziu a revoltas que progressivamente levaram à mudança de regime. Khomeini não desembarcou assim de repente. A oposição preparou a sua vinda e as potências ocidentais também, visto que ele vivia em França nessa altura.

Em 1979, Khomeini consegue chegar à liderança suprema. Ele prometeu que os valores iranianos não seriam corrompidos pelos Ocidentais. Com a sua chegada ninguém pensava num regime religioso integrista. A oposição pensou numa passagem para um regime democrático, que os desembaraçaria do Xá. As mulheres apoiaram-no no início e estavam a favor do novo regime. As pessoas pensavam que ia valorizar os princípios religiosos no sentido da cultura do país, que a população partilhava, mas não dum Islão integrista.

O integrismo é um certo extremismo na prática religiosa que é imposta por um regime político ou por um grupo dominante. A Lei Islâmica (Sharia) transforma-se numa lei à qual são submetidas as outras leis. A Sharia está acima das leis públicas, que não podem contradizê-la. Pode haver uma interpretação mais moderna da Sharia, mas no integrismo é uma aplicação rigorosa. Para saber o que são realmente as práticas integristas há que ver as decisões tomadas em relação às mulheres, que são uma questão central apesar de nem sempre parecer. A questão das mulheres, que se quer fazer aparecer como um problema secundário, é fundamental, porque elas não só representam metade da população, mas também têm muita influência. São elas que educam os filhos, são elas que veiculam a cultura, elas são a base da sociedade. O regime apercebeu-se disso rapidamente e começou a tomar medidas para as marginalizar, e para as afastar do espaço público.

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Patrícia: Como é que as coisas se passaram para as mulheres com a chegada de Khomeini?

No momento da mudança de regime, depois de Khomeini voltar ao Irão, as mulheres desceram para a rua, muitas vestidas à maneira ocidental, outras com roupa mais tradicional. Houve uma repressão brutal. A partir daí foram tomadas medidas que atingiram e reduziram os direitos das mulheres. Com o aparecimento do extremismo integrista revogaram-se as medidas tomadas pelo Xá:

-Baixou-se a idade do casamento para os 9 anos, porque o profeta casou com a Aicha quando ela tinha esta idade.

– Institui-se a obrigação de usar o véu, mas não o hijab integral preto que cobre o corpo todo. As mulheres tinham de se vestir de maneira estrita e de cobrirem os braços e as pernas.

Apareceram muitas proibições:

-A proibição de transportes públicos mistos.

– Acesso vedado a certas funções públicas, ou a certas profissões, que tinham sido abertas às mulheres no tempo do Xá, tal como a função de juiz.

-A admissão da poligamia sem restrições quando ela tinha diminuído bastante.

-A repudiação foi facilitada.

-A lapidação e o retorno aos castigos corporais, tal como existiam em tempos antigos e seguindo as prescrições da Sharia.

Pode-se imaginar o que esta evolução representa para uma mulher que trabalha e faz uma vida normal.

Não podiam trabalhar como antes, nem vestir-se como queriam, nem circular à vontade no espaço público.

A guerra do Irão contra o Iraque marcou muito a sociedade. Os homens foram para a guerra, inclusive os mais novos, e até muito novos, no fim da guerra quando faltaram recrutas. Um milhão morreu. Entretanto as mulheres ocuparam os seus lugares na agricultura, no comércio e em diversas outras funções públicas e administrativas. *?*nexo?*Como em todas as guerras, inclusive nas guerras coloniais empreendidas por Portugal.

A sociedade foi evoluindo, e depois da morte de Khomeini as mulheres ocuparam mais funções. A mudança foi de baixo para cima, e apesar das leis continuarem a ser limitativas alguns aspectos importantes foram ultrapassados.

Patrícia: O que se pode dizer da Polícia dos costumes e da repressão?

Esta Polícia foi instituída pelo regime islâmico e controlava o vestuário das mulheres, inclusive se tinham manicure ou maquilhagem. Hoje as mulheres maquilham-se e vestem-se de maneira muito moderna, mas sempre com o corpo coberto. Os Pasdarans, brigadas de controlo, ou os Bassidji, têm também brigadas femininas que lidam mais com as mulheres, podem levá-las para as esquadras da Polícia, deixá-las na prisão, por vezes podem até bater-lhes na rua.

Em 2016, ainda havia 7000 agentes destas brigadas de controlo da moralidade pública.

Nós como estrangeiras, ao percorrermos as ruas das cidades, não vimos detenções nem castigos corporais. Vimos mulheres vestidas de maneira normal, com saias compridas ou calças, inclusive jeans, com um véu fino na cabeça. Com a liberalização do regime, a repressão foi muito atenuada.

Hoje o Irão quer mostrar uma imagem de mulheres modernas, de sociedade evoluida. As mulheres revindicam as suas especificidades, entre outras, a de se vestirem, não como ocidentais, não imitando o Ocidente, mas (sobretudo para uma certa classe com poder de compra) com uma moda que foi criada in loco, que lhes é específica, com muito estilo e bom gosto.

E a questão do acesso à educação? Pode ser um factor de mudança na sociedade?

Pode ser contraditório: por um lado as mulheres são reprimidas porque infringem as normas, mas por outro lado as mulheres são altamente escolarizadas, 98% das raparigas têm acesso à educação, 83% são alfabetizadas, percentagem comparável à dos países ocidentais. Nos museus e outros sítios históricos vimos saídas organizadas pelas escolas com grupos de raparigas acompanhadas pelas suas professoras. Estavam vestidas com um traje igual para todas e com um véu branco, azul ou cor-de-rosa na cabeça. A educação faz-se dentro da escola, mas também fora da escola para dar a conhecer o seu país.

Nas universidades, 58% dos alunos são mulheres, o seu número ultrapassou já há alguns anos o número de rapazes. Ainda que tenham mais dificuldades de acesso a carreiras científicas, podem ter acesso à universidade. Isso dá uma ideia do que poderá ser o futuro.

Mas tudo não é tão cor-de-rosa como se pensa, porque uma vez com o diploma nas mãos, as raparigas têm dificuldade em encontrar um emprego. O acesso ao mercado de trabalho é difícil, mas mesmo sem restrições legais, (os empregos são proibidos no exército, por exemplo) as possibilidades de emprego são fracas.

As sanções impostas pelo Ocidente e as dificuldades em colocar o petróleo no mercado internacional limitaram o número de empregos. O Irão, mesmo não sendo muito aberto, ressentiu também os efeitos negativos da crise internacional que desacelerou o crescimento.

A nível do regime os conservadores têm muito poder e isso tem consequências do ponto de vista económico. Os investimentos estrangeiros são limitados, controlados e acompanhados por condições definidas pelo regime, o que faz com que sejam mais escassos. Também a circulação das divisas e dos pagamentos internacionais não facilita as coisas e desincentiva o investidor estrangeiro, dificultando assim a introdução de novas tecnologias. Os iranianos querem desenvolver estas novas tecnologias, mas não querem ser afectados pelas consequências negativas, porque não querem a dominação das multinacionais.

Para as raparigas diplomadas que não encontram emprego, segundo o livro de Firouzeh Nahavandi, o diploma transforma-se numa mais valia para serem candidatas ao casamento. Assim, mesmo contra a sua vontade, o casamento acaba por ser o objectivo final.

Quanto às relações sexuais, um inquérito citado no mesmo livro dá uma ideia da percentagem de raparigas que têm relações antes do casamento, o que é o caso de mais de metade. Estamos a falar de raparigas universitárias, num meio urbano e que não é desfavorecido. Mas as raparigas não assumem a sua sexualidade e são capazes de recorrer a uma operação de reconstituição da sua virgindade antes do casamento. É uma das contradições duma sociedade que está a evoluir rapidamente e que está confrontada com uma certa modernidade.

Patrícia: Como se organizam as mulheres dentro e fora do Irão?

Tem que se fazer a distinção entre as organizações oficiais do regime, que evoluem com as tendências do regime político e as outras mais independentes. O Presidente Horani deu mais atenção às primeiras. Mas elas não podem ser consideradas representativas, como se fossem movimentos da sociedade civil.

Esta última organiza-se para tomar posição perante os vários problemas que se levantam.

Em 2009, na campanha eleitoral, em que Moussavi foi candidato, os movimentos civis apoiaram a sua campanha. Os jovens e as mulheres aderiram, mesmo sem se identificarem com organizações conhecidas. Depois desta campanha eufórica, em que as pessoas acreditaram que ele podia ganhar, o resultado foi decepcionante. Há quem diga que houve fraude durante as eleições para ajudar Ahmadinejad a ganhar.

No Ocidente, ouvimos falar de algumas campanhas a favor dos direitos das mulheres. Não de todas, com certeza, porque o eco nem sempre chegou.

Das que ficaram conhecidas, citamos, por exemplo, a campanha “1 milhão de assinaturas para acabar contra as leis discriminatórias contra as mulheres”. O impacto foi muito importante, apesar de não ter tido o efeito desejado do ponto de vista jurídico. A mobilização foi importante com a ajuda das redes sociais.

Estas redes transformaram a vida das pessoas e as formas de participação, tal e qual como nas Primaveras Árabes, de que já falámos. Os efeitos das campanhas teriam sido impossíveis sem a internet.

A outra campanha é “Stop para sempre com as lapidações!”, toca num problema mais delicado e teve menos adesão. A sociedade tem mais dificuldade em admitir a existência do adultério feminino. O número de lapidações, que ainda são praticadas (algumas 50 nos últimos anos), tem vindo a diminuir. A ideia nesta campanha é também de acabar com todas as formas de violência.

No princípio, os homens tiveram uma posição de cepticismo face a estas campanhas, mas depois muitos deles aderiram. Podiam ser os maridos ou pessoas próximas. Alguns participaram nas manifestações públicas.

Houve também a campanha para as mulheres poderem assistir a manifestações desportivas (caso do football). Há equipas desportivas de mulheres iranianas que ganharam medalhas nos Jogos Olímpicos. O véu não foi um obstáculo para a sua participação, apesar de ter havido um debate animado sobre esta questão.

As últimas iniciativas individuais, em 2018, tiveram a ver com protestos contra a colocação do véu. Mulheres retiraram o véu no espaço público. Há uma saturação relativamente a esta obrigação. O acto destas manifestantes foi considerado desobediência pública, e as mulheres foram submetidas a pena de prisão por um mês ou mais.

Não se pode terminar esta curta análise sobre as mulheres iranianas, sem mencionar Shirin Ebadi, uma das primeiras juízas, que defendeu os direitos das mulheres e das crianças e deu o seu apoio aos movimentos de mulheres. Ela foi galardoada com o Prémio Nobel pela sua coragem e pela sua luta.


[i] Entretanto o artigo “Femmes iraniennes sous la République Islamique” foi finalizado, e já pode ser consultado no Blog da Nelly www.paixliban.skyrock.com

Foi integrado no libro: Combats des femmes, Arab scientific publishers, Beirut,

[ii] Publicado pela Académie Royale de Belgique, Bruxelas, 2016

[iii] Entretanto o Presidente dos EU, Donald Trump denunciou os acordos assinados o que leva a uma crise profunda no país e a um disfuncionamento económico. Apesar da UE querer manter os acordos, os EU ameaçaram com retaliações contra as empresas que desobedecerem e quiserem furar o bloqueio.

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